domingo, 11 de outubro de 2015

32

Quero escrever a dor. Passá-la pro papel, eternizá-la nas linhas, na letra de mão que treme, de coração que geme. 
É estranho, quando aquilo que te mata te faz viver em outro dignificado. A falta do que comer te faz não sentir fome, falta do que beber te faz não sentir sede. A dor é tão forte que te faz não sentir nada. A falta de tudo te faz se suprir com o nada que te forma. Fui lâmpada que se quebrou em infinitos pedaços. Saí cortando quem estava por perto. Saí sujando de sangue as ruas, as roupas, as casas, os corredores esterilizados com doenças... Meu corpo, e tantos outros corpos que não sou dona, mas que fazem parte do que me constitui num silencio que me esmaga. Eu pedi por isso. Eu pra me baterem, me chutarem, me cortarem até ficar inconsciente. Eu pedi pra vida dar na minha cara, que sou menina que não teme, enquanto muitos reclamam porque geme, mais o que é importante é outro. E eu fui levada as pressas na ambulância para outro planeta. Outro planeta onde fui abençoada com 
visão.

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