domingo, 21 de junho de 2015

17

Sou filha de Oxum
filha de Iemanjá
no meu peito bate todo o olodum
na minha mente ecoam as bençãos de Jah
do céu vem a chuva pra lavar
da terra brota gan(jah)
na minha alma pulsam xamãs
no meu ventre tem benção de Alá.

G R A T I D Ã O
independe de crença,
agradece não só pela saúde
mas também pela [doença].

16

Não tem um dia sequer que eu não fale de rap.
Poucos entendem -
ficar lombrado de realidade
vale mais do que mil beck.
E sim, foda-se
escrevo exatamente do jeito que falo
inteligência adquirida na rua
vale mais do que mil certificado.
E trago
comigo
muita fome do que não se come.
Fome de rimar
sinônimo de cuspida pingando na cara
de quem vê um irmão
dormindo no chão
e vira o olhar
só porque,
pasmem, meu bem
dentro da sua vidinha mansa
olhar aquilo não convém.

15

Somos líquidos
encharcados de complexidades
mandinga é saber
o tamanho da inundação
que nos cabe

14

Resumo minha existência
em ânsias
olhos famintos
hematomas
pulmões podres
e coisas ainda por dizer -
que também estão apodrecendo
dentro dos vários [nós] em mim
Essência
é um arame farpado
que me isola
de todas as outras coisas que não sou eu
ponta da faca que minha língua
afiada
lambeu
Mas senti numa lua dessas
um corte
que me sangra
até agora.
Mas digo logo a tudinho
um sonhozinho
que meu peito pouquinho
está prestes a parir -
Qualquer dia desses me leio
já me (li)berto
aí tomo um chá de consciência
pra ver
se me distancio
aqui bem perto.

13

Existe algo
apodrecendo
dentro do que eu chamo
de eu
Percebi
que todos somos
poemas
em processo de decomposição.
É meio triste
viver assim
apodrecidos
com peitos sufocados de ilusão.
Apodreço
porque sou feita de águas
de carne
pele, osso
e algumas mágoas.
o que você chupa pra viver
eu engulo sem mastigar
É tanta incerteza
que até dói
vomito pro mundo
uma escrita que corrói.
Desfalecência crua
mente cheia de talvez -
dou um trago amargo
boto meu casaco
acendo um cigarro
sinto uma brisa nova a cada passo
e saio por aí coberta de nudez.

12

CANSEI DE FALAR DE AMOR, CANSEI DE FALAR DE AMOR!
A realidade me consome Meu ar meio que some Não consigo respirar A realidade respira o meu ar É tão difícil falar A fala é esquartejada a pele é rasgada a mente é anulada A todo o resto Que é tudo. E nada. Cansei de falar de amor As coisas bonitas estão mortas E todos só se preocupam em trancar suas próprias portas, suas próprias portas suas próprias portas!!!
Ser humano é feito de dor
De egoísmo 
E rancor
CARAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAALHO MANO,
eu cansei de falar de amor.

11

Encontrei no chão da minha terra
mais um coração fora do peito.
A chuva inundou o ouvido do mundo
que ficou surdo
nu encontro seio no seio

Aquela velha desconfiança
do que pode acontecer
só aumenta a intensidade
do lamber morder comer

e ser,
à dois.

Faltou
foto
focando
o fato.
Merecia um olho molhando o lábio.

Mas dos olhos que abriam
e viam
depois fechavam,
e ainda assim olhavam
faltou acesso aos rios de dentro...

Aqueles que
quando evocados
trazem à tona dois poemas
molhados

Mas essa façanha
não é toda hora que me assanha...
Mesmo assim, vou rasgar!
beber dessa mistura de suor
saber outro corpo de cor
é vício melhor
que minha boe chamada cana.

10

Hoje acordei com uma rosa pra dar
mas antes de levantar
feri a rosa com os meus espinhos 
violei a minha própria intimidade
e estuprei 
o que restou 
dessa tal realidade.

9

À margem do que sou
existe o que escrevo
e ao me reescrever
percebo - 
minha poesia acidental 
está com fratura exposta

8

A tua luz me penetrou
entre rasgões e mordidas
teu coração partido virou minha
comida
teu fervor me tocou o seio
em meio a uma e outra
lambida

7

Criada nas ruas
comeu verdades nuas
e cruas
Em meio a fogos de artifício
calor de corpos
orifícios

Leminski 1

"eu queria tanto
ser um poeta maldito
a massa sofrendo
enquanto eu profundo medito
eu queria tanto
ser um poeta social
rosto queimado
pelo hálito das multidões
em vez
olha eu aqui
pondo sal
nesta sopa rala
que mal vai dar pra dois"

6

Como Leminski
carrego o peso da lua
e três paixões mal curadas
assim parada no tempo
dos olhos de um outro alguém
ferida até a última distância entre nossas bocas
sentindo teu hálito que não foi
procurando um par
um blues
ou aquelas velhas 21 gramas
que se foram na ocorrência de um
último
sus
piro
pirei
no verbo do acaso
metáfora vanguardista

5

Perdidos em textos remendados
poesia re-cortada
café de ontem
nosso suor tragado em panos baratos que cobrem um colchão qualquer fé que alimenta
acasos que sempre saciam nossa fome
de viver
e meu corpo junto ao teu
nesse enlaço de olhares que se reescrevem a cada flash
olhos nus olhos
nossa nudez retórica

You are my desert
meu amor com sabor de manga e fiapo entre os dentes.