quarta-feira, 14 de outubro de 2015

33

"Então procurei, pelo teu cheiro nas ruas que andei, nos corpos dos homens que amei... Tentando em vão te encontrar".
Uma música que sabe como rasgar
um beijo que sabe como queimar
olhos que por si só sabem trepar
porque quem vive
dá pra vida
dá sem dó, sem pena, sem medo
sem (pu)dor.
e eu cansei de me pedirem pra falar baixo
amenizar os devaneios
por uma simples questão
de educação
de não chamar atenção
essas conversas
tão previsíveis 
que não prendem minha atenção
essas pessoas que 
tão desesperadas
imploram entre olhares 
que eu me importe
mas todos sabem que não me importo
e quando então percebem isso
me jogam baldes e baldes do lixo
da vergonha e do pudor
fazem suas melhores caras de 
eu tenho pena de você
mas todos esqueceriam o despeito
o orgulho
apenas com minha mão a puxar outra mão
pra um beco escuro
uma rua deserta
um fim de festa sujo e cheio do vazio
que as pessoas deixaram
quando se tocaram que quase nada iria mudar.
Melhor ilusão é a de achar que o mundo muda
quando nossa cabeça tá girando
depois de mandar pra mente
ou tomar mais outra dose do que ainda
vai nos matar.
Eu não amo minha vida,
mas sou completamente apaixonada por ela
os contatos com outros mundos
são os incontáveis delírios que me formam
desde quando abro o olho e me surpreendo
até o momento que fecho e piso em qualquer expectativa
de respirar
não preciso de expectativas, basta minha fé
e o que é meu por direito.
Fazer o quê?
eu gosto de fumar droga
gosto de esquentar meu corpo
ahh, como eu gosto
gosto de me drogar do outro,
mas não de vários
porque cada corpo é formado de tanto mundo
tanto chão pra pisar
tantas sementes a florescer
tantos caminhos nunca trilhados...
Toda loucura é única e deve ser aprofundada,
toda loucura no fundo tem mais beleza do que muitos
sujeitos normais
que só dão nomes diferentes
a suas insanidades -
e eu não preciso de nomes desculpas taxações esteriótipos conclusões
dos outros
eu só preciso de alguém mais louco do que eu
pra me fazer me sentir menos isolada
no m² mental
do filme continuamente assistido
e que tem seu clímax
paradoxalmente
eternizado
no que chamo de minha vida.
- na imensidão de uma vida que sangra em si e pelo outro

domingo, 11 de outubro de 2015

32

Quero escrever a dor. Passá-la pro papel, eternizá-la nas linhas, na letra de mão que treme, de coração que geme. 
É estranho, quando aquilo que te mata te faz viver em outro dignificado. A falta do que comer te faz não sentir fome, falta do que beber te faz não sentir sede. A dor é tão forte que te faz não sentir nada. A falta de tudo te faz se suprir com o nada que te forma. Fui lâmpada que se quebrou em infinitos pedaços. Saí cortando quem estava por perto. Saí sujando de sangue as ruas, as roupas, as casas, os corredores esterilizados com doenças... Meu corpo, e tantos outros corpos que não sou dona, mas que fazem parte do que me constitui num silencio que me esmaga. Eu pedi por isso. Eu pra me baterem, me chutarem, me cortarem até ficar inconsciente. Eu pedi pra vida dar na minha cara, que sou menina que não teme, enquanto muitos reclamam porque geme, mais o que é importante é outro. E eu fui levada as pressas na ambulância para outro planeta. Outro planeta onde fui abençoada com 
visão.

31

Onde se perderam
os bordados
os artesanatos
os conhecimentos inatos
os amores sem assassinatos...?

As tintas pra fazer arte
o foguete pra fugir pra marte
outro espírito pra deixar o mundo aparte
outro corpo pra de mim fazer parte...?

terça-feira, 6 de outubro de 2015

30

POEMA TRINCADO -
cacos de vidro
pela narina,
copos de veneno
pela boca.
Tudo que entra,
sai.
preciso vomitar a vida.

29

Quando se alinham as diretrizes,
o que nos resta de mais sagrado
são as cicatrizes.
Aquelas que eu sempre verei 
ao olhar no espelho
quando for sair
pra me iludir de novo.
Sabe, projeto de poesia...
é que eu adoro o brilho da minha blusa azul
combinado com meu batom vermelho
fatal nº 7
combinado com meu perfume ops
de melão
combinado com meu short jeans
vulgar
combinado com minha sede
de embriaguez e cigarro e corpo e sexo
e peso
sempre que o sol nasce
eu adoro o brilho das minhas mentiras
combinadas com meu perfume de suor
com o jeans da minha pele
todo cheio de mancha
com minha sede de vampira.
Que me faz esquecer
durante a madrugada
a merda que eu faço
durante a madrugada.
Fazer o quê...
a insônia quebra as pedras dos meus rins.
só que as vezes
acontece de eu quebrar minha cabeça nas pedras.
Normal,
não se pode dizer que uma alcoólatra não tem histórias pra contar pros seus netos -
se ela conseguir segurar um bucho
se não morrer com uma cirrose
se conseguir viver por mais 9 meses.
por fim esse poema
que ficou uma bosta
mas que me representa
merece
não só palmas
mas o tocantins inteiro
de tão bom
que não ficou.
foda-se com muito carinho,
L.

28

a cura tá na doença que crio
em ruas esquisitas
em circulares lotados 
cheios de gentes suadas
multidões
que se esbarram
não se enxergam
muitas vezes se pegam
mas não se dão.
sigo com essas amizades
de se ver uma vez na vida
outra na morte
que é quando vivemos
quando nos comemos
vivas

todas afogadas
em mares
rios
sucos gástricos
sucos de limão
com cana
azeite na vida
pra parecer saudável 
vida apreciável 
aquela que não temos
a boemia
de dois mil e quinze
sofre alguns transtornos 
psíquicos
bipolaridade

pouco álcool pra muita cidade
pra muita praia bonita
que eu não vou
pra muito café elegante
que eu não pago
pra muito bar
que eu não tenho com quem beber
e a gente segue
nessa imensidão
de vários nadas
que somos nós
quando somos tudo.

na solidão cabe o mundo inteiro.