terça-feira, 24 de maio de 2016

41

O desejo
sendo ele a instalação
da falta
inviabilizaria a vida
se totalmente preenchido.
por isso que nós
seres de carne, sangue
substâncias químicas
cósmicas
e mágicas
sempre teremos algo que sobra
no seu não-existir.
o não ter é a sobra,
mares, outros oceanos
sem nenhuma gota m'água -
cinzas de um fogo que nunca houve,
pedaços de chão proibidos de pisar.
metáfora
catarse,
psicanálise impossível -
a única coisa que é inteiramente real
é aquela que não é visível.
quando mais longe
mais me aproximo
quando mais próximo
menos de mim tenho
naquela coisa minha que é do outro
e aquilo do outro
que sempre será só meu.
Sou queimada viva em pleno polo Norte:
Rio Grandense!
Onde os peixes nadam fora d'água.

terça-feira, 17 de maio de 2016

40

maníaca
instalação da falta
eternizada
feito
a incompreensão
de mentes
do tamanho de fetos
apodrecidos
pelas certezas absolutas
fecundadas.
não temo:
espremo
as lágrimas que molham os tecidos da face
e numa tentativa de combate
guerreira
bruta
ou só burra demais
me invado da certeza mais dolorosa:
ou me engajo no estrago
ou me instalo na mentira eu mesma faço.
não posso criar
no que mais abomino
uma identidade:
puritana da família tradicional da farsa e mediocridade!
prefiro que de mim sintam nojo
não preciso me explicar para ninguém -
quando estiverem cansados de se incomodar de mim tirem o olho
e comecem a refletir nos seus próprios poréns.

39

ALUGADA
ocupei minhas paredes
água e luz incluídas
estou temporariamente
mesmo que o (a)temporal seja pra sempre
sendo meu lar
meio pulsante bagunçado
louça suja casa sempre a um passo de ser varrida
porém aconchegante
como todo lar deve ser -
nu na liberdade.

nua privacidade
me encontro leoa num aquário
deitada num dia chuvoso -
almoço de ontem, cobertor e colchão.
deitada num dia ardoroso -
tempero o corpo e como no chão.
vish, quase me esqueço:
amanhã sem falta tenho que ir na feira escambar o coração por 1kg de feijão!
"sou casa, com água encanada, pelas veias, sangue em dutos"

dois



Resisto na coexistência
Coexisto na (re)existência
res-piro

"my heart is beatting in a different way"


38

Gosto do gosto da carne
mal passada
que vive passando mal
na frente dos meus olhos -
sangue nos olhos
coagulou
agora meu açougue
faliu, secou.
Mas num tem problema não seu doutor
vendi costela, fígado, coração
mas num sinto mais a barriga roncando não
é que a fome, a fome foi minha última refeição.
sou alimentada.
desse vazio que é vício à custo-benefício.

37

faltou nicotina
faltou (a) feto
[e Ele ali colocando sal naquela sopa rala,
que mal ia dar pra dois.]
aquela sopa sem tempero 
sem,
a carne...
era só cheiro das piores verduras
a vida que a gente vê:
é dura quente, pelando!
É fervente,
e também é ventre [...]
Faltou comida
o que era prematuro morreu 
de fome:
fome (com)ida, 

sem volta.
Me transformei em cão
tirei
os fiapos de manga apodrecidos entre os dentes.
A chuva fez o acontecer,
a chuva fez o acontecer se desfazer
me desfaço
não disfarço!
Como fumaças que são levadas pelo vento,
eu vento. E hoje entendo:
não quero pó
quero sentir o cheiro do póema.
"a maior malandragem do mundo é viver"
{eis que a malandragem, em meio ao dialeto se simplifica: o saber viver a vida (não a vida te viver) é saber qual o preço do corre,
e o valor da correria}

36

Abandono o abandono -
fortalecidos no nada:
é quando 
o vazio vira
o que somos