quinta-feira, 20 de agosto de 2015

26

Existe amor(?)
existe necessidades(?)
existem os dois juntos(?)
e existe nenhum deles(?)
pra quê serve amor
se o toque se anula?
se o olhar perde a visão?
se a boca foge ao peito?
eu cresci assim
moça muito cedo
ninguém me ensinando a amar
mas experiências me ensinando a lamber
e daí ser puta?
facadas e facadas no céu da boca
nesse bocado
de fumaça que não me chapa
não atinge,
só tira a roupa e finge
o teatro que não foca no acadêmico
me enforca no eufêmico
para, miga
para de gostar do que é polêmico
que nada
eu sou o que apodrece enquanto ninguém tá vendo
o que apodrece quando sai da geladeira
o que não vinga
pega essa porra de moral e finca
no meu peito pra ver se entendo
mas a real, mamãe
é que não aprendo
não aprendo a ter mãe, irmão, amigo
não aprendo a namorar, essa porra é cheia de perdido
aprendi a dar
meu corpo tá na promoção, pode levar
sabe, não dói mais
não dói não ter
não compreender
não ser compreendida
limpa a comida entre os dentes que já tá apodrecida
limpa isso que fede
essa porra manchada que você chama de pele
afinal, o que é uma porra de buceta?
cu
poupe meu rosto dessas escarradas de urubu
poupe meu corpo desse pudor
poupe meu copo desse terror
já tive terror demais
os traumas, as psicoses
psiquiatra é o caralho
só quero terminar minha noite com mais umas doses
a questão é que
eu já admiti minha crença
já pari
minha doença
fazer o quê
se é só na rua que eu consigo enxergar algum porquê
é só nela que meu corpo não vê o que temer
no frevo?
eu danço
mergulho em suor -
eu encanto.
aprendi a ser sereia andando
pelos becos
buracos
ruas escuras
tocas
riachos escondidos -
praias desertas
peixes de fogo
bebidas que ardem
sentidos que fogem
no decorrer da viagem
eu caio do penhasco
mas aí eu aprendo a voar
e volto para cima de outro penhasco
maior ainda
eu sou o próprio asco
engulo o vômito mas sempre volto a enjoar
vejo mais uma vez carreiras em cima do prato
pior caninga
faço macumba, faço mandinga
já deixei meu corpo se molhar com muita língua
a gente prova tempero
com gente temperamental
a gente se permite na frente do espelho
voo de flor de sal
permite o toque
esquece aquilo de "não pode"
molha até dar choque
na transa a gente dá enfoque
só que depois, a gente não esquece
a memória que ao chegar logo aquece
tô precisando fazer uma prece
pra ver se a gente se acha ou se perde
um dia cru
lavanderia cru-el
uma noite de Florbela Espanca
só que "espanca a flor bela!!!"
uma madrugada doce
só cheia de alucinações
sou bichos
sou platônicas
sou vadias
diagnosticada com:
dor
e algumas heresias.

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